A CHEGADA - domingo
São Paulo, 19 de fevereiro. Resolvemos fechar um pacote de uma semana
pro carnaval. Com isto, ao contrário de toda a cidade iríamos viajar apenas no
domingo. Isto me deu a possibilidade de ir pela segunda vez a um bloquinho de
carnaval de rua em São Paulo. Prudentemente, sabendo que iria viajar no dia
seguinte e que teria que sair de casa às cinco da manhã, deveria ter ficado em
casa quieta no sábado. Mas era carnaval e o bloco era na porta da minha casa;
literalmente! Pensei que conseguiria me recuperar no dia seguinte durante à
viagem; e com isto me joguei no bloco! Ê maravilha! Há quanto tempo não
escutava Bandeira Branca…
Mas não há como escapar das consequências da decisão. Quando saí de
casa às cinco ainda tinha bloco na rua. Foi meio surreal; mas parti sem olhar
pra trás!
Na correria de fechar a viagem não consegui o mesmo voo que minhas
amigas, então só as encontraria em Ilhéus. Também não consegui um voo direto,
então após uma enorme peregrinação as encontrei às 15hs me aguardando para
enfrentarmos a segunda parte da viagem de mais duas horas de estrada de terra,
cheia de buracos, até Barra Grande. O que eram duas horas viraram fácil três em
função da estrada.
Camilinha tem fobia de avião e os casos dela valem um capítulo à parte
na história. É de rolar de rir! A vez em que ela começou a gritar, no meio do
voo, que todo mundo ia morrer e teve que ser sedada pela comissária de bordo é
ótima, se não fosse trágica! Mas quando ela descreve a porta do avião se
abrindo e a equipe de terra aguardando por ela com uma cadeira de rodas (aguardando
a pessoa que tem necessidades especiais) e tirando ela do avião antes de todo
mundo é de chorar! Deixa todo mundo com vontade de passar por uma experiência
dessas com ela pelo menos uma vez na vida. Bom, isto tudo pra dizer que
obviamente quando pegamos o transfer ela ainda estava sob efeito do Rivotril e
foi babando até Barra Grande. Acordava de tempos em tempos só para pescar
partes das histórias o que depois geraria uma versão só dela do que foi dito;
como se fosse uma colcha de retalhos.
A Carina sentou no banco da frente preocupada em ter que render conversa
com o motorista durante o trajeto. Pois ela mal sabia que era só dar um tópico
que ele desenvolvia pela próxima meia hora fácil. Um clichê. Um carioca que
conheceu uma baiana e abriu uma pousada.
No intuito de nos tranquilizar sobre a extrema segurança da cidade e
como poderíamos andar tranquilas; ele nos conta um caso de um assaltante que
passou por essas bandas e foi assassinado pelo grupo local. Dando a entender,
óbvio, que ele estava neste bando de justiceiros. Depois disso e milhares de casos
sobre como ele era poderoso e mandava em toda a cidade, começamos a suspeitar o
quanto do que ele dizia era realmente verdade. Priscila, muito esperta, a esta
altura já o ignorava bravamente olhando a paisagem lá fora. Camila continuava
sob o efeito do Rivotril e eu e Carina ainda tentando fazer o social. Foi então
que começaram as histórias sobre as diversas formas que ele já tinha expulsado
os hóspedes da pousada. Aparentemente sempre por culpa dos hóspedes; mas
chegamos à Barra Grande com duas certezas: Uma – passar o mínimo de tempo
possível na pousada. Duas – Arrumar outro transfer pra volta.
Na correria de bloquinho, acordar de madrugada, pegar avião, fazer
escala; meu estômago já avisava em alto e bom som que à aquela altura, às sete
da noite, eu precisava almoçar. Deixamos a bagagem na pousada e fomos direto
pra vila. A primeira impressão não poderia ter sido melhor. Lojinhas
pitorescas, restaurantes charmosos, piso batido de terra e muita gente
desencanada. Paramos em um restaurante que se chama Macunaíma. Fica bem de
frente pra praia com vista para o píer. Os assentos são grandes almofadões de
chita no chão com mesas bem baixas, como se fossem tatames. A iluminação é toda
feita com velas deixando um ambiente totalmente intimista. Da forma como chegamos
acabadas depois de tanto sacolejo, nada melhor do que nos jogarmos pra começar
nossas férias.
Prato principal: Mariscada e Risoto de frutos do mar
Bebidas: Caipirinha de maracujá e manga e cerveja.
A Caipirinha foi sugestão da Camilinha, que tomou pra ela a autoria da
receita. Queira isto fosse verdade ou não, a combinação virou a vedete da
viagem e nos acompanhou até o fim.
Não sei se a fome era grande; ou foi isto somado à paisagem linda, com
o delicioso barulho do mar, o ambiente aconchegante, companhia insubstituível e
nada, absolutamente nada de preocupações corriqueiras de São Paulo, foi a
melhor refeição que fizemos na cidade.
De volta à pousada, começamos a constatar o inevitável; a conexão 3G e
wi-fi seria um luxo que não encontraríamos com frequência. Um desafio para nós
quatro que temos o Iphone como uma extensão do corpo e onde a falta de conexão chega a gerar
crises de ansiedade.
O quarto tinha duas camas embaixo e um mezanino com mais duas em cima.
O detalhe era que pra chegar até lá tínhamos que enfrentar uma escada que de
tão inclinada mais parecia uma escada marinheiro. Nos entreolhamos e pensamos
como isto iria funcionar no dia que abusássemos da bebida. Não ia. Decidido. Se
alguém exagerasse ia ficar no andar de baixo. Eu e Priscila fomos as corajosas
a enfrentar a escadinha e depois de ignorarmos as baratinhas conseguimos todas
cair no sono justo dos viajantes.



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